Mariano Carvalhal, jovem intelectual, pai precoce. Formou-se em psicologia por uma das melhores escolas do país. Avesso à badalação, mas gostava de gente, de contato com pessoas. Trocar idéia com os outros.
Há muito que acompanhava a política de sua cidade, Anubati. Lugar de médio porte, de grandes cabeças, mas também de pequenos cérebros.
Armando Pomes, deputado mais votado e prefeito de Anubati. Homem truculento, mas com lábia envolvente, sedutor. Com um projeto político desolador para esta cidade. Queria enriquecer. E assim o fez.
Anubati não tinha escola decente, mas o ponto nevrálgico era o sistema de saúde pública. O governo do Estado de Anhangabti informava que era a cidade que mais recebia verba do estado destinada à saúde, depois da capital. Mas o sistema hospitalar estava em frangalhos. Descrever seria redundante.
A cidade foi assolada por uma epidemia de Dengue. Saiu na imprensa nacional como o local do país onde a epidemia era mais forte.
Amaleta adoeceu. Febre alta, vômitos, dores no olho e no corpo. Nenhum remédio para febre fazia ceder e queimação que tomava conta da pele daquela menina. Mariano olhava a filha com carinho, alisava seus cabelos, que naquele momento estavam imersos numa sopa de suor. Apavorado, colocava sua filhinha de 09 anos no banho gelado. Via aqueles beicinhos arroxearem e as pequenas arcadas dentárias tilintavam uma na outra. De repente a febre desapareceu. A esperança surgiu. A menina estava curada. Engano!!! Em seguida surgiu uma golfada de sangue que ensopou Mariano e expulsou do seu corpo toda a esperança de ver um mundo melhor. Amaleta fechou os olhos e faleceu.
Falar sobre a dor deste pai seria até uma pretensão pois não se descreve o indescritível. Apenas chegamos a quilômetros de distância do amargor da desgraça.
Mariano, com sua dor, velou e enterrou a filhinha. O que pegava mesmo era ver aqueles olhinhos fechados, dias antes arregalados esbanjando vitalidade e inocência. Vítima de um mosquito??? Na mente do jovem professor de psicologia flamejava o ódio. Ele não conseguia perceber que a sua saudade intensa era substituída pelo desejo incontrolável de vingança. Mescla de sentimentos. Até o momento, vingar-se de quem??? Dos agentes de saúde que não conseguiam acabar com o mosquito? Do povo, que mesmo apanhando como mula, continuava a deixar juntar água em potes? A direção da flecha odiosa era para Pomes.
Até então o jovem pai se via indiferente à situação do seu município, em todos os sentidos. Como um homem tão instruído poderia ser indiferente? De que adianta tanta instrução se não se pode usar essa ferramenta para a mudança das coisas? Na realidade Mariano sofria de exaustão emocional e despersonalização. Começava a tratar seus alunos e pacientes com insensibilidade. Será que esse homem estava sendo punido por isso?
Sua indiferença nasceu uns três anos depois que se formou em psicólogo. Os embates entre as diversas escolas do pensamento psicológico o excitava. Jaques Lacan, Freud, Sartre, Nietzsche, Jung…Seus mestres. Tanto conflito acadêmico desflorava sua curiosidade e animava o seu estudo.
Quando saiu do universo da teoria e mergulhou no profundo lamaçal das angústias humanas percebeu que não era tão simples exercer sua profissão. Passou a ser professor de uma grande faculdade particular e percebeu nos seus alunos uma completa ausência de propósitos para vida. O belo mundo da teoria desapareceu e as angústias dos outros passaram a ser as suas angústias. Se enxergava nos pacientes e tinha nojo dos alunos, que só pensavam no mundo como o grande paraíso hedonista, no sentido negativo da palavra.
Começou a ler Albert Camus e descobriu que a melhor forma de se proteger era ser indiferente, niilista. Se tentasse modificar o mundo sempre depararia com as dificuldades criadas por seus próprios pares. O seu próximo vivia para ver seu próprio umbigo. Ele não pensava nem admitia esse tipo de postura. Digamos que um utópico. Uma mente despreparada para o lado cruel da humanidade.
Indiferença seria igual a escudo. E assim foi vivendo para a sua família e para os seus amigos. Para as pessoas que amava. O resto era resto.
Então veio a dor da perda e, enquanto pensava em sua biblioteca, via a imagem de Armando Pomes. Este era o responsável direto pela sua angústia, pelo seu Hades em vida. Via a cara do sacana, com seus longos bigodes contando vantagem. Pomes dizia que a causa da epidemia estava na insistência das pessoas em não colaborar. Os jornais nada falavam sobre os anos de gestão desse verme. Sobre suas fazendas adquiridas com o dinheiro alheio. O povo era culpado. Mas como esse pessoal sem cultura poderia cuidar da saúde coletiva se não conseguiam cuidar da própria? O miserável sabe que tem pressão alta mas só vai cuidar depois que tem um derrame. Talvez o secretário de Pomes, Pintuíno, que não era profissional de saúde e sim advogado, não conhecesse que para se ter e dar saúde é necessário educação. É o princípio da educação para a saúde.
Enfim, Mariano concluiu que a culpa era do prefeito Pomes…E pronto!!!
O tempo passou. A epidemia desapareceu.
Pomes ia para uma de suas fazendas. Era um hábito regular. Gostava de dirigir uma Besta sozinho. Não que ele não tivesse um Honda Civic na garagem. Mas gostava de passear pelas fazendas com sua Besta. O pneu furou. Como?? até aquele trecho a estrada era federal e era boa. Não tinha caído em nenhum buraco. Merda!
Quando pegou o macaco para levantar o carro, parou um outro carro em seguida. O rosto jovial de Mariano parecia ter luz própria. Resplandecia. Ofereceu ajuda. Pomes já tinha uma certa idade. Enquanto o prefeito segurava o pneu o rapaz pegou a chave de roda e golpeou moderadamente a cabeça do outro, fazendo-o perder os sentidos. Não queria matá-lo. A angústia aguda já tinha passado. Agora era tudo calculado e articulado.
Devidamente calçado com luvas, deu um fim na Besta. Pomes foi amarrado no seu porta malas. O carro chegou num barraco velho, nas beiras de uma estradela rural, vicinal. O prefeito já acordado, mas imobilizado perguntava o que estava acontecendo. O orgasmo do jovem era visível. Abriu um álbum e mostrou Amaleta, lindinha em seu vestido rosa do colégio. Mostrou outras fotos da inocente menina. Contou sobre a sua vida. Como era feliz com a sua família. Contou como morreu, como viveu. Chorou. Pomes dizia que não tinha culpa. Ai então Mariano insistiu e falou mais sobre como Amaleta era em vida. Exaurido, o prefeito esboçou uma lágrima. Mas o rapaz não deixou que as circunstâncias explicassem a razão daquela gota de líquido que vertia daquela cara de pau.
Abruptamente usou dois pedaços de madeira para escancarar aquela boca imunda, pegou uma faca afiadíssima e arrancou a língua do homem. Acidentalmente quebrou dois dentes e curiosamente o pré molar quebrado tinha uma restauração de ouro puro. Os olhos do jovem eram fogo de felicidade. Tinha algum conhecimento técnico, já que labutava na área de saúde. Comprimiu o orgão, digo, o coto de língua usando um ferro em brasa para estancar. O político estrebuchava, relinchava de dor. A boca queimada e o corte liberaram tantas endorfinas cerebrais que o próximo passo não foi muito doloroso para o prefeito. Teve seus punhos cortados com machado em cima de um cepo. O mesmo método do ferro em brasa foi usado para controlar o sangramento. Com os dedos arrancou-lhe os olhos e com cuidado de um cirurgião usou duas lascas de madeira para furar-lhe os tímpanos. Enquanto enfiava as lascas, girava-as, destruindo irreparavelmente as estruturas do ouvido médio. Armando desmaiou. Agora cego, surdo e mudo.
Mariano depois de eliminar todas as provas meticulosamente, guardou os órgãos extirpados em um saco plástico e no retorno a Anubati jogou numa vala onde açougueiros jogavam carcaças. Um local onde os urubus faziam festa. Em pouco tempo não sobraria nem uma falange. Engraçado é que urubus não gostam muito de carne fresca mas sim de carniça. Por alguma razão que a natureza não revelou eles brigaram pelas carnes.
Pomes foi levado pelo próprio Mariano Carvalhal diretamente ao hospital público de Anubati. E nesse momento começou a grande arte da interpretação com expressões típicas das pantomimas e verborragia teatral diante dos médicos e enfermeiros do fatídico Hospital de Plano de Anubati (HPA). O homem dizia que tinha encontrado o prefeito agonizando na estrada e parou para dar socorro. Enganou policiais facilmente, afinal ele conhecia as técnicas de simulação.
A partir daquele dia transformou-se num herói. Uns passaram a considerá-lo santo, pois sofreu na pele as consequências com a morte de sua filha, mas soube perdoar. Uma minoria o considerou um otário.
Armando Pomes foi transferido para um hospital particular após o precário atendimento no seu hospital. Ficou 10 dias na UTI mas conseguiram salvá-lo
Frequentemente recebia visitas do rapaz em casa, que o acariciava. Quando se aproximava do prefeito este tinha espasmos musculares como se tivesse tendo convulsões.A família pensava que o trimilique era de felicidade e alegria quando sentia a presença do outro. Mas como podia saber e reconhecer seu anjo-algoz, já que estava sem ver, ouvir e não podia falar nem escrever?
Pelo cheiro
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Até quando aguentaremos esses ladrões da esperança?
Iremos para o túmulo por causa deles? Qual o sentido das coisas se não podemos ter dignidade social?
Mais um texto para pensarmos sobre as nossas reações diante da bandalheira.